Devo ser muito doente mesmo. Estou aqui curtindo um de-li-ci-o-so chocolate acompanhado de um cafezinho, após ter almoçado um salmão.
Pensa que estou alegre? Longe disso.
Ainda estou pensando se devo ou não ficar alegre porque amanhã vou visitar a Provence – viagem esperadíssima, inspirada por meu amigo Flávio, de Montevidéu, que um dia me escreveu dizendo que eu deveria ler Peter Mayle, um inglês que mora há mais de 20 anos no sul da França e escreveu livros bárbaros sobre sua vida provençal.
Pois é, já que eu posso (risos), vou conhecer este paraíso terrestre que, ultimamente, nem paraíso é mais: os incêndios criminosos estão devastando essa idílica região.
Mas o meu baixo-astral está lá: não posso ler sobre corrupção no Brasil, corrupção no alto escalão da ONU, judeus americanos acampando na faixa de Gaza (há tempos estou dizendo que a retirada dos colonos, prevista para daqui a 5 dias vai ser uma desgraça), desentendimentos entre a Rússia e a Polônia, o Irã produzindo a sua bomba atômica...
Mas, Teresa, minha santa, o que você tem que ver com tudo isso? Eu sei lá, só sei que eu sofro.
Um amigo me disse no início desta semana que “o mundo está se tornando um lugar desconfortável”. A título de informação, a frase é da Anna Arendt. Ela tinha toda a razão.
Mas, como não quero ser chata e rabugenta, confesso que estou bastante satisfeita com uma pequena vitória. Consegui comprar, depois de revirar Paris de cabeça para baixo, uma manteigueira.
Está certo que eu não queria uma qualquer. Queria uma manteigueira colorida, diferente.
Bati perna três dias! por vários bairros até que finalmente, decidi ir a Montmartre. Pensei: lá é um lugar de artistas, deve ter algo que se pareça com o que eu quero.
Não deu outra: olha só o que eu achei!
Acho que estou desparafusada hoje. Vou parar por aqui. Bom fim de semana!
P.S. Não deixe de clicar no banner do post abaixo e participar da caminhada ao Congresso Nacional contra a corrupção.
É verdade, eu já tinha assentado no meu coração a decisão de não voltar a falar sobre a situação política do Brasil, mas o e-mail que recebi hoje de uma jornalista brasileira aqui em Paris me chamou à responsabilidade cívica.
Então, estou convidando você a participar da e-indignação, a maior manifestação popular on-line do Brasil: uma caminhada virtual rumo ao Congresso Nacional contra a corrupção.
A caminhada percorrerá virtualmente 1012 km de São Paulo a Brasília. Cada cadastramento representa um avanço de 2 metros na caminhada. Para tanto, são necessários 506 mil participantes.
Para quem está no exterior o e-indignação é tudo de bom: um caminhão carregando um grande vídeowall estará à frente do Congresso Nacional no momento da chegada. Assim, você estará participando ativamente, mesmo de longe, deste enorme movimento de indignação nacional.
Clique no banner abaixo, inscreva-se e divulgue o e-indignação aos seus amigos.
Assistindo ontem na TF1 a um documentário sobre o lançamento da primeira bomba atômica, em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, uma amarga constatação tomou conta da minha mente:
Os mortos no World Trade Center, em Madri e em Londres são fichinha perto da destruição material, física, moral e psicológica causada pelosnorte-americanos nas cidades de Hiroshima e Nagazaki.
Não que o terrorismo atual não deva ser deplorado. Longe disso.
Mas penso que aquela barbaridade que deixou conseqüências nefastas ao longo das gerações tem que ser melhor conhecida e execrada sempre.
Na escola, por exemplo, aprendemos que o lançamento da bomba se justificou pela intransigência do Japão em se render aos Aliados, que já tinham vencido Hitler e Mussolini na Europa. Ah bom, então está explicado, e não se fala mais nisso.
A tragédia, porém, é inimaginável: a bomba tinha uma potência de 14 mil toneladas de TNT. Essa energia se transformou em calor, vapor e radiação, cada um desses três efeitos sendo em si devastador.
Desde o primeiro milésimo de segundo a energia térmica liberada na atmosfera transformou o ar em uma bolha de fogo que atingiu 1 km de diâmetro sobre Hiroshima em poucos segundos.
Ao solo, a temperatura subiu a milhares de graus no ponto de impacto. Num raio de 1 km, tudo foi instantaneamente pulverizado e reduzido a cinzas. A 4 km do epicentro, prédios e seres humanos entravam em combustão espontânea. Mesmo as pessoas que se encontravam a 8 km tiveram queimaduras de 3º grau.
Em seguida ao calor, veio a onda de choque: a pressão causada pela expansão de gases quentes provocou o avanço da onda, que se assemelhava a um muro sólido, a uma velocidade de quase 1.000 km por hora.
Esta onda reduziu tudo a poeira num raio de 2 km. Dos 90 mil prédios da cidade, 62 mil foram inteiramente destruídos.
O terceiro efeito, ainda desconhecido em 1945, foi a radiação. Ela causou diversos tipos de câncer, leucemias etc. O mais terrível é que esses efeitos só apareceram meses, às vezes anos, depois da explosão.
As mulheres grávidas no momento da explosão deram à luz bebês com más-formações, principalmente a microcefalia.
Foram 80 mil mortos no momento exato da explosão. Nas semanas seguintes, mais 50 mil pessoas perderam a vida, e no final de 1945, o total de mortos chegou a 150 mil.
Três dias depois foi a vez de Nagazaki.
Em 15 de agosto, o imperador do Japão, Hirohito, anuncia a capitulação incondicional de seu país.
Em 2 de setembro de 1945, com a capitulação japonesa assinada a bordo do Missouri, chega ao fim a Segunda Guerra Mundial.
O Memorial da Paz de Hiroshima exibe os nomes de 221 mil pessoas mortas em conseqüência direta ou indireta da explosão.
Diante dos números e do relato dos poucos sobreviventes, eu cheguei à conclusão de que, em termos de terrorismo e destruição, os homens-bombas da Al-Qaida têm ainda muito o que aprender com os americanos.
A França é o país das reivindicações, das associações, das reclamações, que proliferam como cogumelos (versão francesa do nosso chuchu na serra) para tratar da defesa de tudo contra todos.
Mas nenhuma associação é mais popular e mais querida do que a Nem putas nem submissas (NPNS), da qual virei fã incondicional.
Com o objetivo de chamar a atenção para o velhíssimo problema de mulheres agredidas por maridos, irmãos, patrões, líderes religiosos e machistas diversos, o NPNS foi criado em 2003, após o sucesso da Marcha das Mulheres contra os Guetos e pela Igualdade, de 1º de fevereiro a 8 de março daquele ano, em vários pontos da França.
O motivo da Marcha era o de protestar contra o assassinato de Sohane, 19 anos, queimada viva em 4 de outubro de 2002 numa lixeira de Balzac, bairro árabe em Vitry-sur-Seine, pelo simples fato de não corresponder aos padrões de comportamento da comunidade.
Ao invés de casar com alguém escolhido por seu pai, Sohane queria ser esteticista e abrir seu próprio salão de beleza.
Corajosamente, 5 moças e 2 rapazes oriundos desses guetos percorreram 23 cidades francesas chamando a atenção da opinião e dos poderes públicos para a condição de meninas e mulheres vítimas dessas leis.
A Marcha chegou finalmente a Paris, onde reuniu 30 mil pessoas por ocasião do Dia Internacional da Mulher.
Hoje o movimento está espalhado em 60 comitês locais por toda a França e começa a alcançar outros países: dois comitês estão em vias de abertura, no Marrocos e no Egito.
Que mulheres e homens do século XXI continuem a botar a boca no trombone!
Mesmo com o sol se recusando a dar o ar da sua graça nesta alta temporada estival, voltei domingo a Montmartre, bairro imortalizado por Charles Aznavour na música La bohème.
Claro que o bairro não é mais o mesmo que era na juventude de Aznavour, como ele testemunha em sua música.
Mesmo assim, não pude resistir à tentação de me fazer desenhar por um dos inúmeros artistas que circundam a Place du Tertre. Em quinze minutos ali estava eu, em carvão, para a posteridade.